Apaixonada por um bipolar

A história de cinema de uma leitora bem real

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Há duas semanas escrevi sobre a banalização dos transtornos mentais e a sensação de impotência das famílias que convivem com doenças psiquiátricas. Não é de hoje que esse assunto me toca e me inspira. A saúde mental, no Brasil, é uma das áreas mais desassistidas. Uma de nossas maiores fragilidades. Tivemos a oportunidade de discutir a respeito nesta reportagem, nesta coluna, nesta outra e em vários textos recentes.

O último foi motivado pelo sucesso do filme O lado bom da vida, que concorre ao Oscar em oito categorias. Tem poucas chances, segundo os entendidos de cinema. Mas a comédia romântica tem seu valor.

Para uma leitora de Brasília, que conhece o transtorno bipolar bem de perto, o valor é inestimável. Jovem, bonita, funcionária pública, ela se apaixonou por um rapaz que sofre de transtorno bipolar e vive numa cidadezinha do Rio Grande do Sul.

A pedido dela, preservo a identidade do casal, mas não poderia deixar de dividir com você o relato de amor escrito por essa mulher. Hoje esta coluna é dela. É dela, para ela e para todos os que precisam de cuidado e compreensão. Pelos meus cálculos, algo como 100% da espécie humana.

A arte sempre imita a vida, não é mesmo?

Logo no início de O lado bom da vida, reconheci a cena em que o paciente recebe alta de um hospital psiquiátrico. Não poderia ser mais autêntica. Foi exatamente assim com um jovem gaúcho, diagnosticado com transtorno afetivo bipolar do humor, a cada saída de uma de suas várias internações em unidades psiquiátricas do Rio Grande do Sul. 

Os pais de um bipolar sofrem com a ideia de sua internação. Até se conscientizarem de que, no meio de uma crise, isso é o melhor que se tem a fazer. Muitas vezes os pais solicitam a alta antes do término do tratamento, o que pode provocar novas e mais fortes crises. 

Na saída, quase sempre outro paciente pede uma carona. O diálogo que se instala pode ser tão cômico quanto o do filme. Se ao mesmo tempo não fosse tão triste…

E.A.B, 25 anos é tão bonitão quanto o ator Bradley Cooper, que faz o paciente bipolar. A carreira de modelo e o sonho de ser ator em São Paulo foram interrompidos há quatro anos. 

A crise foi desencadeada pelo stress das dificuldades que a carreira impõe para um jovem simpático, inteligente, generoso, romântico e gentil do interior do Rio Grande do Sul. Além disso, houve a traição da namorada, com quem morava na época. 

Durante a exibição do filme, enquanto as pessoas gargalhavam com Pat, o personagem de Bradley Cooper, eu não conseguia conter minhas lágrimas. 

Conheci E.A.B numa rede social. Sou a “Tiffany” (a personagem da atriz Jenniffer Lawrence) da vida real. Reservada, misteriosa, sensível, complicada, um tanto instável emocionalmente. Sem rumo na vida, por problemas afetivos. Com histórico de uso de medicamentos igualmente controlados. 

Acabei conquistando a atenção de E.A.B. 

Assim nos referíamos um ao outro: “Duas almas perdidas que se cruzaram por algum motivo.”. Como no filme, tudo começou como um romance desencontrado, com idas e vindas de uma cidade para outra. Cenas de brigas, términos e voltas. E ainda a certeza de que nenhum seria capaz de viver sem o outro.

Ele tem um histórico de perdas pessoais desde a infância. O pai morreu de repente, de parada cardíaca. A irmã, aos 14 anos. Lidar com isso é muito difícil até para quem não tem uma condição psicológica sensível como ele.

Atualmente, depois de várias internações, E.A.B trancou a faculdade de Administração e vive com sua mãe, uma mulher admiravelmente forte. Mora numa cidade muito pequena no interior do Rio Grande do Sul. É estigmatizado, não consegue uma oportunidade de trabalho.

O bullying engessou a vida dele. Quando era criança, publicaram fotos dele. Diziam que era o menino feio que queria ser modelo. Talvez esse tenha sido o estopim. Essa é a conclusão tirada por ele mesmo. Em minha opinião e na de sua mãe coruja, não existe homem com sorriso mais bonito.

Diante do destaque internacional dado ao filme “O lado bom da vida” e aproveitando que alguns jovens acham que ser bipolar é “da hora”, é importante que nos seja dada a oportunidade de ampliar o conhecimento público sobre esse transtorno incapacitante que não recebe a devida atenção da legislação brasileira.

O preconceito e a ignorância prejudicam a recuperação do paciente. Quem toma regularmente a medicação (lítio e outros estabilizadores de humor) e recebe o devido acompanhamento psicoterapêutico, pode voltar a ter uma vida normal, trabalhar e produzir. Além de amar como qualquer outra pessoa.

Sobre a autora: CRISTIANE SEGATTO – Repórter especial, faz parte da equipe da Revista ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo. Para falar com ela, o e-mail de contato é cristianes@edglobo

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Saude-e-bem-estar/cristiane-segatto/noticia/2013/02/apaixonada-por-um-bipolar.html

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Depressão bipolar: está na hora de falar sobre isso” é a mais nova campanha da Daiichi Sankyo, que tem o apoio da ABRATA - Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos. O objetivo é conscientizar a população em geral sobre a importância da depressão bipolar, doença que atinge mais de seis milhões de brasileiros e depende de melhor diagnóstico e tratamento adequado.

2018-02-02T17:14:08+00:00 2 de agosto de 2013|Categorias: Blog, Transtornos do Humor - Conceitos|Tags: , , , |4 Comentários

4 Comentários

  1. Karina 26 de janeiro de 2014 às 02:11 - Responder

    Linda história. Hoje uma das minhas preocupações é a convivência de um parceiro com a minha doença.

    • Equipe Abrata 27 de janeiro de 2014 às 19:19 - Responder

      Karina

      Agradecemos o seu contato!
      Abraços fraternos e conte sempre com a ABRATA!
      Equipe ABRATA

  2. fernanda 28 de junho de 2015 às 18:16 - Responder

    Olá!
    Sou bipolar e toc e estou apaixonada por um homem admirável.

    Me sinto impotente em me aproximar dele, apesar dele saber que gosto dele, querer ficar comigo, mas tenho medo do mal que poderei fazer a mim mesma se ele souber que tenho estes transtornos e me rejeitar.

    Já fui casada e passei por separação e divórcio, tive depressão…

    Agora, sinto algo enorme crescendo em meu peito, e para ser feliz tenho que colocar para fora…
    Mas colocar para fora significa me expor e poder sofrer de novo..

    Ele não entende porque eu gosto dele e me afasto…

    Abraços,

    • Equipe Abrata 13 de julho de 2015 às 13:44 - Responder

      Prezada Fernanda

      O estigma em relação às doenças mentais é um dos principais desafios que os portadores desses transtornos têm de conhecer e enfrentar. O medo do desconhecido e a desinformação são os principais ingredientes que alimentam o estigma e o preconceito, mas o silêncio e o isolamento dos portadores (muitas vezes em decorrência do auto-estigma) são fatores que colaboram para perpetuar o preconceito na família e na sociedade.
      Saber quando se abrir e admitir a condição de portador e quando se proteger é algo sempre presente e não há regras para dizer quando se mostrar. Há pessoas mais confiáveis do que outras, há situações mais protegidas do que outras, e só cada um é capaz de avaliar o risco que pode ou precisa correr. No entanto, uma coisa é certa: não é possível construir relações de intimidade com segredos, principalmente um segredo em relação a um transtorno que acarreta consequências para a convivência e o comportamento de ambos. Compreendemos seus temores, mas fechar-se para a possibilidade de construir relações de intimidade é uma restrição dispensável para quem já tem outras limitações necessárias causadas pela enfermidade.
      Recomendamos que você avalie melhor e não hesite em buscar ajuda psicológica para lidar com essa questão tão sensível. Correr riscos é necessário para conquistar coisas importantes, mas precisamos pensar e avaliar bem quando e com quem correr tais riscos. Recomendamos também que você frequente os grupos de ajuda mútua da ABRATA, se isso lhe for possível. Aprender com a experiência de quem sabe o que é ser bipolar pode ser precioso e ajuda a abrir possibilidades que até este momento estão ocultas.
      Um abraço
      Equipe ABRATA

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