Pesquisa analisa afastamento do trabalho por depressão

C4D253A8A39DA60742C45FC997DBAO número de pessoas que se afastam do ambiente de trabalho em decorrência de problemas de saúde mental é crescente. Estatísticas do Ministério da Previdência Social revelam uma maior quantidade de pagamentos de auxílio-doença para os trabalhadores. Em 2010, dos 100 transtornos classificados como mentais e de comportamento, só os episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente representaram 40,7% dos benefícios concedidos.

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 50 pessoas, entre servidores técnico-administrativos e professores, se afastaram do trabalho devido à depressão entre julho e dezembro de 2009. Em 2010, a psicóloga de Recursos Humanos do Serviço Social do Comércio de Santa Catarina (SESC/SC), Gabriela Cavalheiro, analisou alguns desses casos e fez sua dissertação sobre os sentidos que os trabalhadores afastados atribuem ao seu ofício. A psicóloga avaliou 50 prontuários, sendo que, desse total, 36 foram utilizados para o estudo. Por fim, oito participantes foram considerados aptos e/ou aceitaram participar de uma entrevista individual.

Cavalheiro constatou que todos os que participaram do estudo concebem a profissão como emprego e de forma geralmente positiva. Os entrevistados atribuíram a seu trabalho sentidos como a “contribuição social de sua atividade” e “fonte de saúde, de prazer, de oportunidade de estar com as pessoas”. O estudo ainda mostra que o próprio afastamento do ambiente da organizacional, na maioria dos casos, interferiu nos relacionamentos dos indivíduos e afetou seus sentidos de utilidade e independência.

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A maior parte desses trabalhadores tinha o diagnóstico de depressão há cinco anos. O caso mais comum é a depressão recorrente, caracterizado por episódios depressivos constantes, ansiedade, pânico e transtornos de adaptação. A autora notou que os sintomas mais citados pelos pacientes eram “vontade de chorar, angústia, ansiedade, insônia, necessidade de isolamento e presença de pânico ou medo grande de enfrentar situações”. Um dos entrevistados, que sofre de transtorno depressivo recorrente, conta o que sentia. “De repente tudo perdeu o sentido, não tinha vontade de fazer nada, perdi a vontade de viver; precisava de isolamento, não queria falar com ninguém, ficava no escuro, não queria ver ninguém, se as pessoas ficavam preocupadas, me incomodava, brigava”, relata um servidor técnico-administrativo da UFSC, à época com 58 anos.

Preconceito

O tratamento para depressão é geralmente feito a partir da prescrição de medicamentos.  Conforme cita a pesquisadora, 70% dos pacientes tomam algum tipo de remédio para tratar a doença. Os casos analisados na pesquisa mostram que eles usam, em média, três medicamentos ao mesmo tempo. Os principais são antidepressivos e ansiolíticos, para ansiedade. A autora cita em sua dissertação que “no predomínio da concepção médica e estímulo ao uso de medicação como recurso conhecido para o alívio de males da sociedade contemporânea, parece existir uma aceitação generalizada que aprova o tratamento medicamentoso como conhecido para a resolução de problemas, tal qual a depressão”.

No ambiente de trabalho, a pessoa diagnosticada com depressão pode acabar se atrasando ou faltando mais, não consegue produzir e não se sente competente para realizar determinadas atividades. Em alguns casos, os trabalhadores são afastados de seu exercício profissional. Na pesquisa feita por Cavalheiro, 91% dos entrevistados se afastaram por um período longo, de 30 a 120 dias. Uma pessoa pode ficar afastada por mais ou menos tempo, dependendo do agravamento do quadro depressivo e das dificuldades em se recuperar. Alguns não querem voltar a trabalhar e estendem esse período até poderem se aposentar. De acordo com o estudo, “o sistema vigente parece assegurar o afastamento do trabalhador, que já não desempenha adequadamente suas funções, como meio de solucionar o problema”.

A legislação brasileira, por sua vez, não considera a depressão especificamente como doença profissional ou do trabalho. Pelo decreto 3048, de maio de 1999, que lista os transtornos mentais e comportamentais, só classifica doença ocupacional quando os episódios depressivos estiverem associados com exposição a produtos químicos.

Cavalheiro atenta para a falta de conhecimento da população sobre a depressão e o preconceito gerado em torno da doença. “Parece que a sociedade atual encontra-se diante de um paradoxo, tudo pode ser considerado depressão – tristeza, cansaço, falta de motivação ou de ânimo, estresse – que justifique a necessidade de tomar medicação para diminuir ou cessar o sintoma. Por outro lado, nada é depressão, ou seja, nada é verdadeiro ou suficiente para que justifique a necessidade de parar, de não trabalhar”. O depoimento de uma das entrevistadas, diagnosticada com transtorno depressivo recorrente e ansiedade generalizada, exemplifica essa situação. “Acho que as pessoas não entendem o que se passa na depressão, não sei se as pessoas olham pra mim e acham que está tudo bem, mas às vezes você chora a noite toda e pensa em se matar e depois, no outro dia, você percebe que não é tão ruim assim, que não é nada daquilo, toma um banho e continua a vida, a depressão é assim, as pessoas não entendem”, conta uma professora da UFSC, à época com 45 anos.

Conforme citado na pesquisa, esse preconceito acaba afirmando o estereótipo da pessoa que não trabalha. O não trabalhar faz com que se fique à mercê da sociedade e dificulta inclusive o retorno ao ambiente de trabalho.

Fonte: http://www.cienciaempauta.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=62:pesquisa-analisa-afastamento-do-trabalho-por-depressao&catid=8:saude&Itemid=14

Escrito por: Jornalista Jéssica Fuchs

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2018-02-02T17:09:09+00:00 28 de abril de 2014|Categorias: apoio ao tratamento, Blog, Depressão, PESQUISA|Tags: , , , |0 Comentários

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