Qualidade de Vida

Ângela Miranda Scippa. PhD. Psiquiatra

Professora Adjunta do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da UFBA. Coordenadora do Centro de Estudos e Tratamento de Transtornos Afetivos da UFBA

Os transtornos de humor, como sabemos, são doenças médicas que requerem tratamento adequado e, quando não cuidados podem gerar prejuízos na vida dos indivíduos. Embora se tenha conseguido progressos significativos no tratamento dos transtornos de humor nos últimos 40 anos, pesquisas mostram que os pacientes com depressão e transtorno bipolar podem ter persistentes e graves prejuízos psicossocial e ocupacional, mesmo após a recuperação de um episódio agudo da doença. Nesse sentido, vale ressaltar a importância do conceito de saúde estabelecido pela Organização Mundial de Saúde, em 1948, que definiu que saúde não é apenas ausência de doença, mas também a presença de bem estar físico, mental e social. Dessa forma, valoriza-se a manutenção da habilidade individual dos pacientes para desempenhar suas atividades da vida diária, a qual deve ser uma meta importante dos tratamentos médicos. Essa definição mostrou a necessidade de elaboração de instrumentos que pudessem medir também os elementos subjetivos e pessoais, para que se tivesse uma melhor compreensão da saúde como um todo. Dentro desse contexto, surgiu o interesse pela avaliação de qualidade de vida (QV) de pacientes portadores de várias doenças.

Sabemos que pacientes integrados em suas comunidades tendem a viver mais e a recuperar-se melhor das doenças. A visão social da Medicina estabelece que o objetivo final do cuidado a pacientes deve ser a sua reintegração na sociedade, através de uma vida produtiva, mais do que simplesmente o tratamento dos sintomas de determinada doença.

Na verdade, o estudo sobre o impacto da doença na QV dos pacientes começou pela Oncologia quando, em 1948, Karnofsky e colaboradores criaram uma escala de avaliação do estado funcional de portadores de câncer de pulmão. Desde então, diversos instrumentos têm sido elaborados em várias áreas da Medicina, com o objetivo de avaliar QV de pacientes. Em 1998, a OMS definiu QV como: “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto cultural e de sistema de valores em que o mesmo vive, e em sua relação com seus objetivos, expectativas, parâmetros e relações sociais”. Assim, qualidade de vida, ao invés de ser uma descrição do estado de saúde de um paciente, é o reflexo da maneira como ele percebe e reage ao seu estado de saúde e a outros aspectos não médicos da sua vida.

Vários fatores podem alterar a QV de um indivíduo e, se pensando em doença, a QV pode ser alterada por efeitos imediatos do tratamento, ou em consequência da própria doença, especialmente, no caso das patologias crônicas como a depressão. Pesquisas revelam que a falta de autonomia dos pacientes, na simples realização de tarefas cotidianas, como ocorre na depressão, representa a perda mais lamentável de todo o processo de doença. Para outros, esse elemento particular de independência sofre algumas variações como incapacidade para o trabalho ou a falta da participação em eventos sociais e familiares, ou ainda, para os mais jovens, a impossibilidade de desempenhar atividades escolares e recreativas. Alguns trabalhos indicam que a depressão afeta negativamente a QV dos pacientes tanto quanto, ou mais que, doenças físicas crônicas, como hipertensão arterial, artrite reumatoide, diabetes e estágio terminal de doença renal. Vale ressaltar que o retorno ao funcionamento psicossocial pode não se normalizar em curto prazo, mesmo após a remissão do episódio depressivo. Ao atingir a remissão dos sintomas depressivos, observa-se que os pacientes necessitam de um tempo para retornar as suas atividades prévias. É razoável dizer que a recuperação da depressão demanda mais que a simples resolução dos sintomas e determinantes situacionais da QV, como a interação do indivíduo com seu meio, também devem ser abordados no tratamento.

Apesar do aumento do número de pesquisas que avaliam transtorno de humor e QV, o conhecimento sobre a relação entre eles ainda necessita de mais compreensão. Qualidade de vida e depressão podem aparecer como fenômenos opostos, basicamente representando todos os aspectos positivos e negativos do bem estar. Em outras situações, uma má QV é interpretada como consequência da depressão; em outros casos uma má QV pode ser a precursora da depressão. Esse fato estabelece uma relação bidirecional entre a depressão e a qualidade de vida, levando a necessidade do controle e cuidado de fatores externos ambientais e pessoais, tais como satisfação com a moradia, segurança pessoal, acesso a unidades de saúde, a capacidade do indivíduo de lidar com os problemas, qualidade da relação conjugal, presença ou não rede de apoio social.

Dentro dessa perspectiva, a medida da QV se apresenta como um importante instrumento no acompanhamento do paciente, devendo estar presente de maneira sistemática na avaliação da recuperação dos episódios agudos da doença, para que se possa desenvolver medidas preventivas nos cuidados a saúde pública.

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