EU TENHO DEPRESSÃO

Cheguei da academia, tomei banho e sentei no sofá. Senti um cansaço estranho. Pensei que pudesse ter exagerado nos exercícios, em minha décima tentativa de deixar a vida sedentária de lado. Falei para o meu marido que iria deitar um pouco. Na cama, comecei a sentir o coração acelerar ainda mais, um suor frio, que eu achei que era só a noite quente misturada com o metabolismo ainda acelerado.

Tentei controlar a respiração, daquele jeito que fazemos, depois de um esforço muito grande, para que os batimentos se acalmem. Então, tudo aconteceu muito rápido. Comecei a tremer descontroladamente, as mãos ficaram dormentes, perdi o fôlego, a barriga e o peito doíam. Achei que iria morrer.

Senti um desespero enorme. Fui para o pronto-socorro. Quinze por nove, disse o enfermeiro sobre a minha pressão. Morte na certa. Minha pressão sempre foi baixa, nunca passou dos 11. Se estava nos 15 tinha alguma coisa errada. Era morte na certa. E eu pedi para não me deixarem morrer, ao mesmo tempo que chorava e tentava respirar.

Não deu nada no eletro. Quando a médica entrou na sala, com aquela boa vontade típica de quem está num plantão, mas preferia estar em casa comendo miojo, tudo parecia mais calmo. Não sabia se me sentia melhor porque estava melhor ou porque estava dentro de um hospital. Me deram uma dose de ansiolítico. A médica queria saber se eu tinha me aborrecido, discutido com alguém. Nada. Meu dia tinha sido tranquilo, sem altos nem baixos.

Ela refez meus exames. O coração estava ótimo. A pressão de volta ao normal. E a sensação de morte tinha ido embora. A médica quis saber se eu tinha algum psiquiatra. Não, não tenho. Melhor procurar um porque você teve uma crise de síndrome do pânico. Assim, como quem diz que meu problema era gases. Acho que não desmaiei porque estava dopada.

Passei dois dias em casa chorando. Fui diagnosticada com depressão leve e síndrome do pânico.

depre

Os meus familiares mais próximos sabem. Contei também para os amigos. Preferi que eles soubessem de cara porque eu mesma não sabia com o que estava lidando. Ainda não sei a profundidade de tudo, ainda que tudo esteja sob controle.

Eu poderia guardar essa história e dar o caso como encerrado, mas na semana passada vi um post no Facebook de uma pessoa aparentemente esclarecida que dizia o seguinte: o único antidepressivo que realmente funciona é mexer de verdade na sua vida, e/ou no modo como você lida com ela. O resto é doping.

Doeu. Muito. Tive vontade de chorar. De raiva. Doeu por mim e pelas pessoas que tem que lidar com a doença e com o preconceito que existe em torno dela. Frescura, dizem.

Lembrei de como cheguei no hospital achando que iria morrer. Lembrei de outras duas crises que tive. Uma dentro de um bar, de onde fui tirada às pressas, para virar umas gotas de ansiolítico no meio da rua, antes de entrar num táxi, enquanto tremia, suava e chorava, compulsivamente. Outra no saguão de um aeroporto, onde tive que me trancar dentro da cabine do banheiro e deitar no chão esperando que o remédio fizesse efeito, sentindo o chão frio e sujo confortarem meu rosto suado.

Ninguém pede para ter depressão. Ninguém escolhe que a tristeza paralise sua vida. Eu sempre entendi dessa forma, mas como a maioria das pessoas achava que é o tipo de coisa que só acontece com os outros. Acreditava que gente feliz e de bem com a vida são imunes.

Descobri que não são. Eu sou feliz, minha vida é boa. Como a maioria, tenho dias melhores, outros piores. Tenho frustrações profissionais, discuto com o meu marido, me decepciono com pessoas, tenho vontade de esganar o pedreiro. Como todo mundo.

Mas sou do tipo que acha que nunca vai chover, que sempre vai dar tempo, que tudo vai dar certo, que vale a pena fazer as pazes. Para mim o copo sempre está meio cheio. Foi difícil entender e aceitar que tenho uma doença que precisa ser cuidada o resto da vida.

Uma das coisas que mais me assustaram nesse post nem foi o post em si. Um imbecil falando bobagem é só um imbecil falando bobagem. Fiquei abismada com a quantidades de likes que ele recebeu. Uma quantidade enorme de gente que deve achar que depressão é frescura. Que basta vontade para que ela seja resolvida.

Apenas vontade não faz efeito na maioria dos casos.

Entendo que haja um exagero no uso de ansiolíticos e antidepressivos. Qualquer tristezazinha tem sido tratada com tarjas vermelha e preta. Mas quem sou eu para medir o tamanho da tristeza de uma pessoa ou a falta de habilidade dela para lidar com suas tristezas?

Tomei dois tipos de remédios durante seis meses. Um para acordar, um para dormir. Além do famoso ansiolítico para emergências, que eu só tomei nas pouquíssimas emergências. Depois desse período fiz o desmame, fui parando de tomar aos poucos, tudo com supervisão médica. Tive alta do psiquiatra, mas vez ou outra nos falamos e ele está sempre disponível, caso eu precise. O ansiolítico não sai da bolsa. Talvez não saia nunca mais. Não uso, só preciso saber que está ali ao meu alcance.

Sim, eu fiz a minha parte. Reagi. Tem gente que não consegue. Mesmo com a doença, sou mais positiva, otimista e alegre do que muita gente com quem convivo. Mas é a minha essência. Sou uma pessoa alegre. Tive o apoio e o amor do meu marido, da minha família e de amigos queridos. Tem gente que não tem nada disso. Tem gente que é naturalmente menos alegre e tem mais dificuldade para lidar com essa situação.

Me sinto como um ex-alcoólatra. Estou ótima, mas não posso me descuidar. Presto atenção em mim mesma. Sei que tristezas, decepções e frustrações fazem parte da vida e que depende de mim a forma como lido e encaro tudo. Mas de um ponto em diante os remédios foram essenciais. Me ajudaram a levantar durantes várias semanas em que eu estava sob tratamento. Me ajudaram a encontrar equilíbrio para que eu conseguisse buscar as minhas próprias forças para sair do buraco. Espero não precisar mais deles, mas fico aliviada de saber que eles existem.

Dizer que “o único antidepressivo que realmente funciona é mexer na sua vida, e/ou no modo como você lida com ela, e que o resto é doping” é de uma leviandade, maldade e ignorância enormes.

Cada um sabe onde seu calo aperta. Cada um sabe como lida com seus tombos. É uma injustiça julgar as pessoas dessa forma. É claro que é melhor ser alegre do que ser triste. Mas em muitos casos não é só uma questão de escolha ou de vontade.

Colunista:  Mariliz Pereira Jorge

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2015/07/1662232-eu-tenho-depressao.shtml

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Depressão bipolar: está na hora de falar sobre isso” é a mais nova campanha da Daiichi Sankyo, que tem o apoio da ABRATA - Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos. O objetivo é conscientizar a população em geral sobre a importância da depressão bipolar, doença que atinge mais de seis milhões de brasileiros e depende de melhor diagnóstico e tratamento adequado.

11 Comentários

  1. Daniella Fermino 31 de julho de 2015 às 20:14 - Responder

    Maravilhoso o seu texto!!! Passei por isso, meu caso é parecidíssimo com o seu, só quem passa por isso, sabe realmente o que é, pena que mesmo com tantas informações disponíveis, ainda exista gente tão ignorante falando besteira.

    Abraços Daniella

    • Equipe Abrata 3 de agosto de 2015 às 22:06 - Responder

      Olá Daniela
      Agradecemos!
      Abraços
      Equipe ABRATA

    • Edson Cavichioli 4 de agosto de 2015 às 22:14 - Responder

      Olá Daniella, realmente estamos em épocas em que há tanta informação disponivel, mas no entanto, para quem ignora está doença ou nunca passou por tal, interpreta os portadores da mesma de “preguiçosos”. Triste realidade.

  2. Edson Cavichioli 3 de agosto de 2015 às 19:32 - Responder

    Me emocionei lendo o texto. Passei por tudo o que esta descrito, e isto foram cinco longos anos de tratamento. Estou de alta a um ano…mas o ansiolítico sempre por perto como uma muleta.

    • Equipe Abrata 3 de agosto de 2015 às 22:05 - Responder

      Caro Edson

      os cuidados com a saúde, bem estar e qualidade de vida são contínuos. Siga em frente nos seus cuidados. E agradecemos a sua manidestação.
      Abraços
      Equipe ABRATA

  3. Maria Soares 5 de agosto de 2015 às 21:28 - Responder

    Lidar com a dor e o preconceito ao mesmo tempo é por vezes insuportável. Mas seguimos em frente com a ajuda de remédios, bons profissionais e textos maravilhosos como esse.

    • Equipe Abrata 8 de agosto de 2015 às 15:11 - Responder

      Prezada Maria
      Apesar ds dores, sofrimentos, medos e insegurança que uma doença mental promove em todos, o essencial será jamais perder a esperança, a força e fé de que dias melhores e mais qualidade de vida e saúde com tratamentos adequados poderão promover.
      Grande Abraço
      Equipe ABRATA

  4. Carla 18 de agosto de 2015 às 22:50 - Responder

    No meu caso, o tiro na cabeça, foi o meu próprio preconceito. Em 2005 quando recebi o diagnóstico de depressão e fobia social, eu trabalhava como Supervisora de Call Center e atuava no RH, fechando vagas importantes, e em algumas vezes descartamos candidatos que se destacavam pelo currículo e também no processo, ao descobrirmos que tinham histórico de tratamento para depressão. Nesse momento decidi que não deixaria rastros, que saindo da empresa sem apresentar atestado com a temida Cid….
    Desempregada e sem convênio, não me tratei, e me arrasto até hoje com altos e baixos, mais baixos. Uma doença que pra a grande maioria não passa de frescura ou o que mais ouço…falta se Deus, de uma religião. A família apesar não abandonar, não entende.

    • Equipe Abrata 7 de setembro de 2015 às 21:00 - Responder

      Olá Carla

      Infelizmente, apesar da conscientização e campanhas realizadas para esclarecer e informar acerca da doença mental, e mesmo sobre a depressão, socialmente mais aceita, muito ainda deve se feito para reduzir o estigma e preconceitos, tanto nos âmbito social, familiar, como no universo laboral. Também confrontamos com o auto preconceito em relação ao transtorno mental e também em relação ao psiquiatra. Consultar-se com este profissional, para alguns poderá ser a declaração de que é um “louco”, infelizmente.
      O seu relato é essencial para evidenciar que qualquer um de nós podemos vivenciar uma doença como a depressão, e pelo aprendizado, apesar de doloroso, que a vida lhe impôs. Levar esse seu aprendizado para outras pessoas é muito importante. Que tal refletir sobre a decisão que tomou em sair da empresa sem compartilhar o que está vivenciando? Não precisamos de tanto rigidez, se própria vida nos traz situações que precisamos ser flexíveis para buscar mais qualidade e bem estar no dia a dia. O aprendizado é permanente. Procure se cuidar, procure por um psiquiatra, faça o seu tratamento e tome as “rédeas” da sua vida. A depressão tem tratamento com bons resultados e se possível busque o apoio de um psicólogo.
      Se vc reside em SP, aproveitamos a oportunidade e lhe convidamos para participar do Grupo de Apoio Mútuo para pessoas com depressão. Eles acontecem na terça, quinta e sábado. Faça a sua inscrição, primeiro para o Grupo de Acolhimento pelo telefone (11) 3256-4831 de 2ª a 6ª feira das, 13h30 às 17h.
      Abraços
      Equipe ABRATA

  5. Viviana Santos 30 de novembro de 2015 às 18:07 - Responder

    Boa noite! Há um ano mais ou menos tive síndrome do pânico, achei que tinha melhorado, e agora está de volta. Preciso de ajuda

    • Equipe Abrata 30 de novembro de 2015 às 19:10 - Responder

      Cara Viviane!
      Sugerimos que procure um(a), médico(a) psiquiatra, ou psicólogo(a), e relate tudo o que está acontecendo com você, para que possa ter uma avaliação do seu caso, e se for necessário fazer ou não um tratamento.
      Estamos à sua disposição!
      Abraços!
      Equipe ABRATA!

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