Depoimento – Equilíbrio Bipolar

Equilíbrio Bipolar

Marco Campos Porto – Arquiteto e Artista Plástico

equilibrio

Não há nada em um bipolar, nos estados de crise, que seja igual a tristeza ou a alegria. Para quem acompanha a crise de fora, a depressão pode ser apenas uma tristeza profunda, e a euforia uma alegria latente. Internamente o estado do paciente é de confusão emocional  e mental constante. E ao contrário do que afirmam, esses dois estados acontecem sempre acompanhados de um motivo, ainda que, conscientemente, não se saiba. O ser humano, ser complexo, com seu corpo, sua mente e seu espírito, precisa buscar o equilíbrio para viver nessa sociedade que nos cobra sempre a perfeição. Nos cobra sempre um comportamento padrão de vida. Sem ele não conseguimos realizar nossos objetivos, que muitas vezes são impostos a nós.

O bipolar, mais do que ninguém, é esse equilíbrio e busca esse equilíbrio. A dificuldade é que o modo como a sociedade se organiza exige de nós um eterno estado de equilíbrio, para que estejamos sempre funcionais. E se funcionais não estamos, podemos ser descartados, como já fui algumas vezes por apresentar estado de descontrole. Tanto quando na depressão, como na euforia. O pouco desequilíbrio que você apresenta à sociedade, sendo bipolar ou não, você pode ser tratado com preconceito, não receber o apoio adequado, perder seu emprego, casamento, perder boa parte de sua vida. A sociedade em geral não aceita seus doentes que muitas vezes ela constrói.

Acredito que um bipolar tenha desde cedo essa predisposição a viver crises como as muitas que vivi. Mas também creio que o bipolar pode nunca manifestá-las. Acredito que a crise é causada por um pressão externa. Associada aos costumes vigentes desta sociedade mais que doente. Desse modo, considero a sociedade doente e eu um rapaz são, como todos os seres. Todos temos a predisposição de termos nossas infinitas doenças. Mas o corpo, a mente e o espírito são saudáveis. Porém a sociedade nos aperta, nos oprime, nos pressiona. Pois temos que nos moldar a ela e nem sempre nos encaixamos aos moldes que ela no oferece como opção. A cura de um bipolar está exatamente nesse ponto. No equilíbrio entre ser o que a sociedade quer que a gente seja e o que a gente quer que a gente seja.

Acredito que, quando somos o que a sociedade quer que sejamos, nós, bipolares, temos a tendência de cairmos em depressão, de nos perder dentro de nós. E, quando queremos  ser só o que nós queremos para nós, podemos entrar na euforia e nos perder fora de nós. Temos, portanto, que saber lidar com a prisão e a liberdade. O equilíbrio é dominar esses dois estados, para não nos perder de nós mesmos. A pressão que nos afunda na depressão é a mesma que nos leva a euforia. Cansados desta pressão, desistimos de viver, pois não queremos mais ser o que somos e entremos em depressão. Ou nos explodimos para viver o que não somos, e a euforia se manifesta. Eu sempre tentei entender o que faz com que a depressão e a euforia aconteça. A depressão, no meu caso, sempre aparecia quando eu começava a fazer o que eu não sou, a ir por caminho que não sou eu. A euforia sempre vinha quando a depressão não tinha mais onde me esmagar. Então me dissolvia e minha energia perdida e esquecida dentro de mim, saia como uma torrente. Não quero voar pois não tenho asas, não quero enterrar-me pois não sou raiz. Quero apenas caminhar na superfície da depressão e quero apenas olhar de onde estou as nuvens do céu da euforia, por onde já voei sem asas. E por não ter asas, caia muitas vezes como uma pedra no chão. E me enterrava na superfície. E como raiz, me afundava bem devagar e dolorosamente em busca de água, de vida. O que me arrancava do solo e me trazia do céu, sempre foi a família, sempre foram os profissionais da área, sempre foram os remédios, sempre fui eu. Pois o bipolar deve nunca estar só, mas a primeira pessoa que precisa ampará-lo é ele mesmo. Pois só ele se conhece e sabe do seu equilíbrio e do seu desequilíbrio. Por isso só ele tem o poder de ser para a sociedade não o que ela quer, mas o que ele pode. De ser para ele não o que ele quer, mas o que ele pode. É importante encontramos nosso limite. Mas nesse caso, nosso limite é nosso mínimo e nosso máximo. Se formos menos que isso, somos deprimidos, se formos mais, estaremos na mania. A sociedade não nos quer para nós, mas para ela. Somos engrenagem, quando somos para ela. Se para ela somos engrenagem é muito fácil nos dispensar quando damos problema. Pois haverá outro como nós para nos substituir. Mas, como se sabe, o ser humano é insubstituível. Cada um tem sua função especifica. E é muito fácil um bipolar jogar suas capacidades de lado para ser para a sociedade e não para ele. Pois ele sabe que se for diferente não poderá se adaptar ao mundo que vive, e ele “morre” para ele. Por outro lado, porém, ele sabe que se ele for só para ele, ele não só se adapta como  também “morre” para a sociedade. “Morri” muitas vezes nas crises, mas não renasci ainda. Pois não me sinto no equilíbrio, saudável, como sempre fui antes dos 20 anos, quando tive minha primeira crise. Mas estamos todos nós bipolares em busca do equilíbrio que somos. Da nossa paz, da nossa serenidade, do nosso amor por nós.

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2018-02-02T17:09:12+00:00 15 de maio de 2015|Categorias: Bipolar, Blog, DEPOIMENTOS|Tags: , |27 Comentários

27 Comentários

  1. Maga de Moraes 15 de maio de 2015 às 12:07 - Responder

    Excelente depoimento! A frase “A sociedade em geral não aceita seus doentes que muitas vezes ela constrói.” é sensacional. Parabéns.

    • Equipe Abrata 15 de maio de 2015 às 16:51 - Responder

      Olá Maga de Moraes

      Agradecemos a sua opinião sobre o artigo. Esperamos sempre publicar depoimentos de pessoas com bipolaridade e dos seus familiares.
      Abraços
      Equipe ABRATA

  2. sheila Michel 15 de maio de 2015 às 13:25 - Responder

    Bárbaro teu depoimento . Além de poético, é verdadeiro. E ninguém melhor que um bipolar para se encontrar nessas palavras. Esse é o tipo de texto que precisa ser divulgado para que as pessoas passem a nos olhar com outros olhares perante o mundo. Comecei fazendo a minha parte. Obg pela contribuição e parabens!

    • Equipe Abrata 15 de maio de 2015 às 16:55 - Responder

      Olá Sheila Michel

      Agradecemos o seu relato. A ABRATA busca cada vez mais promover a postagem de artigos com depoimentos e ainda promover a discussão em seu Blog.
      Abraços
      Equipe ABRATA

  3. Zípora Prado 15 de maio de 2015 às 14:00 - Responder

    Olá! Também sou bipolar e me sinto exatamente assim com vc descreveu. Não sei se vivo para satisfazer meus desejos ou se vivo hipocritamente para saciar a fome incontrolável da sociedade. Minha vida é um verdadeiro impasse. Gostei muito do seu desabafo. Finalmente, alguém que me entendeu. Abraços!

    • Equipe Abrata 15 de maio de 2015 às 16:57 - Responder

      Olá Zipora Prado

      A ABRATA agradece a sua manifestação em relação ao depoimento publicado. Manifestações como a sua nos conduzem a aperfeiçoar o nosso trabalho.
      Abraços
      Equipe ABRATA

  4. Marco Campos Porto 15 de maio de 2015 às 16:11 - Responder

    Ao reler agora esse texto e os comentários eu me emociono. Me emociono, pois percebo algo que não escrevi. Da ajuda que recebo de quem é bipolar. Só nós sabemos do que cada um vive. Por mais que cada um tenha sua vida particular e que sejamos diferentes, há sempre algo nas crises que compartilhamos. Que dizemos um ao outro: isso também eu vivo. Eu vejo as pessoas que se juntam a lutar por suas causas e sinto falta da gente se mobilizando em peso para lutar, não somente por aquilo que é nosso de direito, mas por nossa qualidade de vida. As vezes me reservo e não conto, por muitos motivos, que sou bipolar. Tenho na verdade vontade de falar abertamente mais sobre bipolaridade com qualquer um que seja, para mostrar que existimos e ir eliminando os estigmas e preconceitos a muitos anos instalados.

    • Equipe Abrata 15 de maio de 2015 às 17:00 - Responder

      Caro Marco Campos Porto

      A ABRATA agradece a vc a oportunidade de compartilhar com os seus leitores o seu depoimento, revelando os sentimentos que envolvem uma pessoa com transtorno bipolar.
      Conte sempre com a ABRATA.
      Abraços
      Equipe ABRATA

    • Andrea 15 de maio de 2015 às 20:38 - Responder

      É muito difícil lidar com o transtorno bipolar do humor. Hoje falo abertamente sobre o assunto porque acho que assim podemos ajudar outras pessoas que sofrem desse mesmo mal. Só quem passa por isso sabe como é. Quem vê de fora pode até se sensibilizar, mas não creio que tenha a real noção, a não ser os cientistas. A grande maioria nem acredita no transtorno. Nem mesmo a família que muitas vezes prefere ignorar a situação, pois fugindo do problema ele de certa forma não existe. “O que os olhos não vêem o coração não sente”. Quem quer ter alguém com problemas? Melhor arranjar alguma desculpa….fazer de conta que os problemas não existem…

    • Patricia Rodrigues 20 de maio de 2015 às 21:51 - Responder

      Boa noite Marcos. Desde 2008 me trato de depressão mas só recentemente recebi o diagnóstico de Tb. Acho que já estou tão cansada de tudo que nem procurei me aprofundar sobre do que se tratavá.
      Hoje estava triste por ter sido chamada de irresposável pelo meu chefe e talvez eu esteja sendo, mas diferente de alguém que acordou com cólicas renais eu tenho muita dificuldade de sair da cama e mais ainda de dizer que estou com vontade de chorar ou morrer ou seja lá o que for. Mas passada a raiva, a tristeza e etc., pensei que tinha que conhecer mais sobre o que eu tinha e fiquei realmente chocada com o seu post pois parece que você está vendo a minha alma! Acho que nem eu consegui “ver” de forma tão clara!
      Queria agradecer do fundo do coraçãocoração por ter partilhado estes pensamentos.

  5. Angela Almeida de Arruda 16 de maio de 2015 às 10:42 - Responder

    Pela primeira vez alguém escreveu com maestria o que eu passo.Sou bipolar e às vezes, me cansa viver!!!!
    É como se minha vida fosse vivida em cima de uma corda bamba.Deixei pelo caminho meus sonhos, planos, pessoas…enfim. Nada se concretizou!!!!!

  6. Andréia Marino 25 de maio de 2015 às 01:38 - Responder

    Belíssima definição!!!
    Seu partilhar enriquece ainda mais a luta contra o estigma, dando a oportunidade de compartilhar suas experiências com os portadores TBH, e aprendizagem para quem ainda esta querendo entender sobre, principalmente nós familiares sempre tão preocupados e sem saber o que fazer muitas vezes.
    Meu obrigada.
    Abraço

    • Equipe Abrata 1 de junho de 2015 às 21:18 - Responder

      Prezada Andréia

      Agradecemos a sua mensagem!
      Abraços
      Equipe ABRATA

  7. Priscila 1 de junho de 2015 às 01:18 - Responder

    Corajosos! Carajosos todos vocês que conseguem admitir que possuem uma doença e que conseguem optar em contar ou não para alguém.
    Fui diagnosticada com TB do Humor, estou medicada… Mas não acredito que eu esteja ou seja doente… Esta falta de acreditar e aceitar a doença é bem complicada pois tenho vontade de parar a medicação o tempo todo… Tenho vontade de chutar o balde e todos e tudo… Então assim, vemos que ainda não estou estável. As vezes tenho a sensação de poder tudo, de ter muitos amigos, carinho, amor e ultimamente ando solitária, triste e não podendo nada… Assim caminho e um dia tudo vai melhorar!!!

    • Equipe Abrata 1 de junho de 2015 às 21:29 - Responder

      Prezada Priscila

      De fato as dificuldades são maiores quando o paciente não aceita ser doente, não aceita o tratamento e acaba não aderindo ao tratamento medicamentoso, além de não manter uma qualidade de vida, como dormir no minimo 08 horas por dia, alimentar-se bem, fazer uma psicoterapia e manter a consulta mensal com o seu médico. E, em caso extremos é necessário iniciar o tratamento contra a sua própria vontade. Com o passar do tempo, quando a família e o paciente aprendem a identificar os primeiros sinais de uma possível recaída e buscam o tratamento, antes que ele perca o senso crítico. Saiba que essencial se cuidar e fazer uso dos medicamentos, assim como aceitar a doença é muito importante, porque a intervenção precoce possibilita abreviar e atenuar o novo episódio da doença.
      Priscila , vc é a pessoa mais interessada na sua melhora e deve sempre se lembrar de que tem uma doença, mas não é um doente. Isto a torna co-responsável pelo sucesso do tratamento e estimula a participação ativa no seu processo terapêutico como um todo.
      É extremamente importante manter a rotina do seu sono, dormir e levantar sempre no mesmo horário. Mudanças no padrão do sono são fortes indutores de oscilações do humor e evitá-las fortalecerá seu equilíbrio. Discuta com seu terapeuta se houver problemas para dormir ou se tiver que permanecer acordado.
      Não utilize álcool e drogas, porque estas substâncias causam desequilíbrio no funcionamento do cérebro. Freqüentemente provocam alterações do humor e do ânimo e interferem diretamente no tratamento. Evite tomar drinques para “melhorar o ânimo” ou “ajudar no sono”, porque só podem piorar. Peça ajuda a seu terapeuta, caso vc tenha, e procure grupos de apoio se não conseguir se controlar.
      Evite o uso diário de café, drinques, alguns chás, antialérgicos, antigripais e analgésicos, que podem interferir no sono, no ânimo e nos seus medicamentos. Pode ser a “gota d’água” para o início de um novo episódio da doença.
      Discuta com seu médico ou psicólogo sobre o preconceito contra a doença, seu próprio e dos outros, pois só assim você terá condições de fazer sua parte no tratamento.
      Se vc reside em SP, aproveitamos a oportunidade e lhe convidamos para participar do Grupo de Apoio Mútuo aos familiares e portadores. Traga seus familiares. São grupos separados. Eles acontecem na terça, quinta e sábado. Faça a sua inscrição, primeiro para o Grupo de Acolhimento pelo telefone (11) 3256-4831 de 2ª a 6ª feira das, 13h30 às 17h.
      No site vc também poderá baixar o livro em PDF – Manual para cuidadores de pessoas com transtorno bipolar. Além de informações sobre a doença e traz muitas dicas sobre como lidar com o portador em diversas situações. Link: http://www.abrata.org.br/new/folder.aspx
      Abraços
      Equipe ABRATA

  8. Isabel Pitta Klein 9 de junho de 2015 às 22:15 - Responder

    Marco! Que satisfação reler seus escritos. Sempre tocante! O final pra mim é o mais claro “”Morri” muitas vezes nas crises, mas não renasci ainda”. É meio chato olhar pra trás e ver o que se perdeu com essas crises e ver que isso não volta mais. Dá até medo de tentar coisas no futuro e ver que vai perdê-las. Aqui, o “morri” ainda tenta se tornar real, mas tenho tido ajuda pra tentar voltar a um estado estável.

    E que cobrança mais pesada da sociedade de sermos perfeitamente produtivos. Concordo plenamente que pouco ou nada o mundo está adaptado a dificuldade de um bipolar de manter constância.

    • Equipe Abrata 12 de junho de 2015 às 19:09 - Responder

      Prezada Isabel

      Obrigada por compartilhar a sua opinião. Depoimentos são essenciais para estimular e evidenciar que sempre há esperança apesar das dificuldades.
      Grande Abraço!
      Equipe ABRATA

  9. Jose 9 de julho de 2015 às 18:15 - Responder

    Olá.
    Gostei desse espaço. É acolhedor.
    Ler este post e comentários foi de uma grande valia para mim.
    Fez com que eu sentisse que a minha situação não é única e irreal.
    .
    Minha história.
    Foi uma médica que indicou-me este site, após saber que sofro de Transtorno Afetivo Bipolar. Ela já vinha me acompanhando, pois estava precisando de remédios para dormir.
    .
    Os últimos doze meses tem sido muito chocantes para mim.
    Venho de uma tentativa de suicídio há 8 meses, precedido de um pedido de divórcio.
    Ha exatos 12 meses, sob o clima de copa do mundo, tive uma mudança brusca de comportamento. Semanas antes havia feito uma viagem ao Nordeste e tudo parecia ter sido muito bom. Mas do nada fui fechando-me… ao ponto de ficar iracundo e voltar da viagem quase emudecido. Apesar do local ser paradisíaco, minha vontade era somente de voltar pra casa e ficar no meu quarto.
    .
    Ao chegar, estava decidido que precisava divorciar-me.
    Era a terceira vez em menos de 2 anos. Sendo que em 2010 eu já havia feito o mesmo, em plena chegada do nosso primeiro filho.
    .
    Para mim nada mais tinha sentido, e passava horas pensando em uma forma de dar fim à minha vida. Até que um dia decidi que era o momento…
    .
    A tentativa de suicídio foi um choque para a maioria, mas não era a primeira vez.
    Em 2003 eu tinha dado início a essa mania que se tornaria algo comum em meus pensamentos.
    .
    Devido às constantes mudanças de humor e os repetidos atos de separar/voltar… os sentimentos que minha esposa nutria por mim estavam minguados, e o que restou foi somente a sensação do “costume de estar junto”. O ato pratico então, só complicou mais a convivência.
    .
    Minha família insistiu para que eu procurasse um profissional e então eu cedi.
    Fui diagnosticado como estando em depressão crônica, e passei tomar alguns medicamentos. Foram várias idas e vindas do consultório, e em todas elas, com exceção da primeira, eu ia sozinho. Em parte, porque não queria… não confiava, e porque só podia pedir para minha esposa.
    .
    Foram 7 meses sendo tratado com psicotrópicos visando somente a depressão.
    Mas aconteceu que o primeiro médico que iniciou meu tratamento aposentou-se, e foi no segundo, que ao primeiro contato, afirmou-me que eu era portador do transtorno afetivo bipolar.
    (…)
    Quando eu cheguei em casa e dei a notícia, minha esposa soltou um deboche… tipo “ah, ah… já haviam me dito que tu era isso mesmo. Putz”.
    Diante do meu silêncio e apos ter me afastado… parece que a “ficha dela caiu”, e então mais tarde, pediu-me desculpas, via “WhatsUp”…
    Mas não a culpo.
    .
    Primeiro ato.
    De início, ninguém aceitou bem esse diagnóstico.
    Nem eu, nem minha família, nem os amigos. “Não pode ser! Como assim, TAB? O que realmente é isso? Por quê? Você é tão inteligente, etc, etc, etc!”
    .
    Segundo ato.
    Começaram as chacotas com a minha cara.
    Uma cena bem marcante foi de alguém que me disse que “me convinha ter esse diagnóstico, pois servia de atestado para as minhas idiossincrasias”. Num outro momento, alguém afirmou: “então desse jeito, eu também sou doida”.
    Sem contar o desespero de minha mãe… e o sentimento de incapacidade de meu pai…
    .
    Minha relação conjugal parece uma onda, com e sem lua cheia.
    Minha esposa não consegue lidar comigo. Me acha complicado, instável…
    Mas não a culpo.
    Certa feita ela disse que “não era médica, e que não tinha estrutura para lidar comigo”. Noutra situação, após eu terminar e querer voltar, ela insistiu que eu deveria “largar o osso… e deixa-la “viver, ser feliz, seguir a vida dela””. “Insistir era perda de tempo”
    .
    Agora, neste momento, estamos rompidos, mas convivendo na mesma casa.
    Para “aliviar-se, ela saiu no domingo e tomou todas… após um surto noturno que tive”. Mas não a culpo.
    .
    Foi então que quase perdi o controle.
    Minha mente encheu-se de pensamentos suicidas, violentos… em que até intentei ir para uma delegacia e pedir para que me prendesse, com vistas a não fazer mal a mim ou a outrem. O cumulo foi quando peguei uma garrafa de álcool e intentei trancar-me no carro e incendiar-me… Mas a ideia de sofrimento… fez-me parar, e entrei em crise de choro…
    .
    Sabe, às vezes eu penso que não existe saída, nem uma solução. Na maioria dos momentos tudo parece levar a crer que estou fadado a viver para sempre assim, e morrer sozinho. Pois… ninguém é obrigado a submeter-se a uma “vida” assim.
    .
    Já perdi muito na vida: seja em relacionamentos, bens materiais, vida profissional, educacional. Muitos sentimentos de culpas, de perdas.
    E tudo parece, e até o é, irrecuperável e/ou irreparável.
    .
    Estou em tratamento medicamentoso, ainda em estágio de adaptação.
    .
    O Marco citou com propriedade, quando disse que estamos sempre morrendo… mas nada de renascer. Fico pensando se, caso tivesse que escolher, se não teria sido menos traumatizador, ter uma doença mais “normal”, pois a forma como vejo que me tratam, é como se eu fosse… anormal.
    Mas já vi parentes com depressão, cardiopatia grave, leucemia, diabetes… e todas são sofríveis. Logo, nem sei o que pensar…
    .
    Mesmo com a sensação de achar que possa não haver esperança… Neste lugar, a troca de experiências, os comentários, criam uma “sensação” de que pode haver sim, uma luz.
    .
    Desculpe o desabafo.
    .
    Abraço,
    José.

    • Equipe Abrata 6 de março de 2017 às 10:06 - Responder

      Prezado José.

      Agradecemos a sua mensagem.

      O Transtorno Bipolar do Humor tem tratamento.

      O tratamento indicado para o Transtorno Bipolar é prioritariamente farmacológico e feito por um psiquiatra, mas a associação da farmacoterapia com a psicoterapia é a forma mais eficaz de controlar os sintomas e prevenir recaídas.

      O tratamento farmacológico consiste de estabilizadores do humor c mas pode incluir o uso de antidepressivos ou drogas que controlam a ansiedade ou problemas com os pensamentos (delírios e alucinações). O uso dessas medicações implicam em consultas freqüentes com um psiquiatra a fim de controlar efeitos colaterais e fazer os ajustes necessários para que os sintomas fiquem estáveis. A psicoterapia ajuda a aprender mais sobre a doença, a prevenir recaídas e a monitorar o humor, a rotina e lidar melhor com diversos problemas que podem desencadear novas crises ou agravar o quadro.

      O profissional indicado para tratar o paciente bipolar é o psiquiatra. A psicoterapia que tem se mostrado mais eficaz na redução de sintomas e na prevenção de novas crises é a abordagem cognitivo-comportamental. Trabalhos de psicoeducação feitos pelos próprios psiquiatras, psicólogos ou demais profissionais de saúde mental também demonstraram ser eficientes na melhora da compreensão da doença e na prevenção de recaídas.

      Um grande abraço.
      Equipe ABRATA.

  10. Rita de Cassia 16 de julho de 2015 às 17:18 - Responder

    Meu caro Marcos Campos Porto,
    Acredito que assim como aconteceu comigo, varias pessoas sentiram que voce traduziu a alma de um bipolar.
    Fui me encontrando por varias frases, muitos sentimentos.
    E a unica palavra que me vem a cabeça é: gratidão.
    Pois só a partir do momento que se consegue uma definição, pode-se procurar por um caminho melhor.
    Desejo a voce de todo coração, muita paz!

    • Equipe Abrata 21 de julho de 2015 às 17:52 - Responder

      Prezada Rita de Cassia
      Agradecemos os eu contato e as palavras de esperança!
      Abraços
      Equipe ABRATA

  11. Kamilla Garcia 20 de outubro de 2015 às 17:45 - Responder

    Olá, muito lindo o que você escreveu, o que você descreveu.
    Tenho 22 anos, fui diagnosticada há 1 ano, mas nem me lembro da minha primeira crise, me lembro que querer não existir quando tinha 3 anos de idade, enfiei minha cabeça em um balde d’agua achando que não iria mais acordar mas nem sabia que isso era querer morrer, e foi assim, altos e baixos desde que me lembro “ser gente”. Apenas quando fiquei grávida procurei ajuda porque as ondas de irritação/tristeza/euforia estavam mais constates e então fui diagnosticada com TAB. Até o momento não estou estável, acho que ainda estou longe disso mas quero chegar lá o mais rápido possível. Infelizmente na minha cidade não consegui achar um grupo de apoio e terapia é só particular.
    Um dia ficarei bem.

    • Equipe Abrata 21 de outubro de 2015 às 19:20 - Responder

      Prezada Kamilla Garcia!
      Ficamos felizes que você acredita que vai chegar lá, porque sabemos que quando a pessoa faz um tratamento regular e continuado, sua qualidade de vida é muito significativa. O importante é ter paciência e persistência, porque com certeza vai valer a pena.
      Como você mencionou não ter grupos de apoio na sua cidade, os CAPS podem ser uma opção, que são Centros de Apoio Psicossociais, e que às vezes oferecem tratamentos e atividades. Procure saber se existe algum aí na sua região!
      Estamos á sua disposição!
      Abraços!
      Equipe ABRATA!

  12. Cláudia Machado 12 de março de 2017 às 15:02 - Responder

    Quero muito ajudar o meu namorado que tem esquizofrenia e não se deu conta que ele está doente precisando de ajuda. Ele tem ido a consultas psiquiátricas, mas não esta sendo como deveria.
    Regularmente. Quero levá-lo a um grupo de apoio.

    • Equipe Abrata 13 de março de 2017 às 08:55 - Responder

      Prezada Cláudia.

      A ABRATA ministra apoio psicossocial a pessoas com transtorno bipolar e depressão, bem como a seus familiares e amigos.
      Dessa maneira, os Grupos de Apoio Mútuo são destinados a essas pessoas.
      Indicamos a Associação Brasileira de Esquizofrenia – ABRE.

      Grupo de Acolhimento:

      O Grupo de Acolhimento para pessoas com esquizofrenia foi criado em 2005 a partir de uma parceria entre o PROESQ da UNIFESP e a ABRE.

      É um grupo aberto, destinado a pessoas de quaisquer serviços da rede de saúde mental. Em encontros semanais com uma hora de duração, constitui-se como um espaço potencial para trocas e discussões onde a partir da própria experiência e da escuta da experiência do outro, portadores discutem questões relativas à vivência do adoecimento e suas consequências no cotidiano. Os objetivos são: proporcionar aos participantes um espaço de acolhimento e sustentação para trocas, reflexões e busca de alternativas frente às adversidades; fortalecer os participantes para o enfrentamento das dificuldades, considerando sua singularidade; incentivar a construção e ativação de uma rede de apoio dentro e fora do grupo. O grupo tem como princípio o diálogo colaborativo e os temas a serem discutidos são espontaneamente trazidos pelos participantes. Relacionamentos, família, trabalho, tratamento, sintomas, estigma e discriminação, autoestima, projetos de vida, recoverysão os temas mais abordados.

      O participantes de ambos os sexos, idades variadas e em diferentes estágios da doença contribuem para uma maior diversificação e enriquecimento da dinâmica. A entrada no grupo se dá através de encaminhamentos feitos por profissionais da área da saúde ou por demanda espontânea. Atualmente o grupo conta em média com 15 participantes.A coordenação é feita por dois profissionais de saúde mental em parceria de pessoas de pessoas com esquizofrenia, que assumem um papel de facilitadores nas discussões. Esses têm a função de facilitar a comunicação e auxiliar o grupo no cumprimento de seus objetivos, além de favorecer para que as trocas ocorram a partir das experiências dos participantes e não das respostas dos coordenadores. A equipe de coordenação e facilitadores se reúnem semanalmente para conversar sobre as questões referentes ao papel de facilitação. O grupo é também um espaço de capacitação de estagiários de graduação e alunos de especialização em saúde mental para, através do processo vivencial, assumirem a função de facilitadores.

      O Grupo de Acolhimento é uma atividade que também tem contribuído para promover a validação do lugar de autoridade das pessoas com esquizofrenia/facilitadores que hoje ocupam esse lugar em ações do PROESQ e da ABRE em nível nacional e internacional.

      Do ponto de vista das avaliações dos participantes, o Grupo de Acolhimento contribui significativamente para a diminuição do sofrimento de pessoas com esquizofrenia, tornando-se possível uma melhor compreensão de sua doença e tudo que a envolve. Além disso, através do apoio, da participação efetiva e da construção coletiva do conhecimento, suscita nos participantes um senso de pertencimento e favorece a construção de esperança realista frente à vida. Através de participação no grupo, torna-se mais possível a busca por desejos, interesses e projetos que possam existir para além da doença, garantindo o espaço para a diversidade e singularidade. Facilita-se também a busca de alternativas para uma melhor qualidade de vida e consequente melhoria da condição de sua inserção social. Os participantes vivenciam um processo de empoderamento, passando de pacientes a colaboradores, sendo protagonistas não só de seus projetos terapêuticos, mas essencialmente de suas vidas. Vale ressaltar que todos os assuntos abordados nas discussões do Grupo de Acolhimento são mantidos sob sigilo, e que, a cada final de mês, na última quinta-feira, é feita uma festinha, oportunidade em que são comemorados os aniversários das pessoas desse mês.

      Local: PROESQ – Programa de Esquizofrenia da UNIFESP/EPM

      Endereço:Rua Machado Bittencourt, número 222

      Estação do Metrô: Santa Cruz

      Coordenação: Anna Miranda, Glaucia Ribeiro de Assis e José Orsi.

      Supervisão: Cecília Villares.

      Abs.
      Equipe ABRATA.

  13. Sergio 13 de agosto de 2017 às 15:00 - Responder

    Preciso começar a frequentar a ABRATA urgente.

    • Equipe Abrata 15 de agosto de 2017 às 08:30 - Responder

      Olá Sergio.

      Venha conhecer as atividades da ABRATA destinadas ao apoio psicossocial a familiares, amigos e portadores
      de transtorno bipolar e depressão.
      Para frequentar os Grupos de Apoio, faça a sua inscrição para a reunião do Grupo de Acolhimento e Integração
      por meio dos telefones (11) 3256-4698 e 3256-4831.
      O atendimento é de 2ª a 6ª feira, das 13h30 às 17h
      A sede da ABRATA é na Rua Dr. Diogo de Faria, 102, Vila Clementino, a dois quarteirões da Estação Santa
      Cruz do metrô.
      Os Grupos de Apoio Mútuo têm os seguintes horários:
      Sábado – das 14h30 às 16h
      Terça-feira – São dois grupos: das 16h às 17h30 e das 19h às 20h30
      Quinta-feira – das 19h às 20h30
      As nossas atividades são gratuitas.
      Seja bem-vindo!
      Abraços
      Equipe ABRATA

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