Atividade Física e Exercícios na Intervenção Terapêutica Complementar da Depressão

Profª. Drª. Rosa Maria Mesquita

Diplomada e mestre em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP) e doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP.

Depressão

Na sociedade moderna, a depressão constitui um importante problema de saúde pública, que preocupa as autoridades responsáveis em razão da sua prevalência e das características patológicas que os sintomas dessa doença adquirem. Os sintomas comprometem a capacidade de os indivíduos desenvolverem suas atividades na vida diária e acarretam prejuízos no desempenho profissional e nas relações interpessoais e, assim sendo, à qualidade de vida.

A depressão, portanto, não é um problema de caráter, de falta de vontade ou indolência; é uma patologia do humor que necessita ser identificada, diagnosticada e tratada.

O tratamento pode ser realizado através de intervenções médicas e terapêuticas. Dentre as intervenções terapêuticas, inúmeros estudos científicos evidenciam que a atividade física tem se mostrado como uma eficaz medida terapêutica coadjuvante para o tratamento da depressão devido aos efeitos antidepressivos tanto dos exercícios crônicos (programa de exercício de longa duração) quanto dos exercícios agudos (uma única sessão).

Atividade Física e Exercício

A atividade física é definida como qualquer movimento corporal produzido pela contração dos músculos esqueléticos, e que aumente substancialmente o gasto de energia. É subdividida em duas categorias: as atividades físicas de tempo-livre caminhada, esporte, dança, etc. e as atividades físicas ocupacionais – relacionadas à performance motora do trabalho.

Os exercícios físicos pertencem à subcategoria das atividades físicas de tempo-livre. A organização, estruturação e repetição de movimentos corporais dos exercícios visam atingir objetivos relacionados não só a promoção como também a manutenção de um ou mais componentes da aptidão física.

A atividade física e os exercícios têm como objetivo desenvolver variáveis de aptidão física relacionadas à saúde como a resistência cardiorrespiratória, força e resistência muscular, flexibilidade e equilíbrio possibilitar a promoção do desempenho motor por meio do refinamento de habilidades motoras (locomoção, manipulação e estabilização). Estas atividades permitem ainda promover aspectos psíquicos saudáveis como melhora do autoconceito, da autoestima, sensação de competência e de controle, autossuficiência. Desta forma, pode atuar sobre o comportamento social por meio da percepção do sentimento de competência social, senso de compromisso e de controle sobre eventos externos.

Os aspectos psicossociais podem ser alcançados porque todas as experiências são vivenciadas, ao mesmo tempo, pelo corpo e pela mente, ou seja, cada experiência mental é acompanhada, simultaneamente, por uma experiência física assim como, cada experiência física é acompanhada por uma experiência mental. Isto ocorre porque corpo e mente são compostos da mesma energia, da mesma realidade; o corpo é a energia de maior massa enquanto a mente é a energia de menor massa.

Estes dois polos energéticos – corpo e mente – constituem uma entidade única indivisível que é cada ser humano; pequenas ou grandes alterações anatomo-fisiológicas, morfofuncionais e nos padrões de movimento são acompanhadas por mudanças psíquicas, comportamentais e sociais. Deste modo, tanto a mente interfere nos processos somáticos quanto o corpo afeta os processos psíquicos.

Assim, o exercício atua simultaneamente no corpo e na mente; maximiza as capacidades funcionais para as atividades da vida diária; propicia o bem-estar geral, a sensação de esperança frente ao futuro, a reintegração social e a eficiência no trabalho. Neste sentido, possibilita a prevenção, a promoção bem como a reabilitação da saúde física e mental.

Bases Científicas da Intervenção

Inúmeras pesquisas sobre a temática “atividade física e depressão” foram desenvolvidas desde 1940 até os dias atuais. Um volume considerável de trabalhos documenta as evidências científicas do efeito positivo da atividade física e dos exercícios para a prevenção, alívio e remissão dos sintomas da depressão. As evidências desta associação são decorrentes de estudos populacionais, revisões narrativas e quantitativas (meta-análise) e estudos experimentais conduzidos com população clínica e não clínica. Estudos epidemiológicos também têm documentado elevação do risco de sintomas depressivos em pessoas submetidas à inatividade física ou prática não sistemática de atividade física.

Os pesquisadores têm proposto dois mecanismos para explicar os benefícios à saúde promovidos pela atividade física e pelo exercício: o biológico e o psicológico.

O exercício físico, por meio do mecanismo biológico, pode atuar como um psicoestimulante leve e antidepressivo. O sistema motor ao ser estimulado pode promover um aumento do aporte sanguíneo e do metabolismo ao sistema nervoso central; ativando as estruturas do sistema límbico e do eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HPA) acarretando, assim, alterações nos sistemas de neurotransmissores e opiláceos endógenos. Estas modificações levam a melhora dos sintomas depressivos, alívio da dor, diminuição da hipertonia muscular, e redução do potencial de atividade do músculo em repouso-relaxamento. A melhora da depressão, por meio desse mecanismo, está associada às melhoras na aptidão física.

Quanto ao mecanismo psicológico, os efeitos dos exercícios são associados positivamente à percepção do sentimento de capacitação e valorização individual (autossuficiência, auto eficácia, autocontrole, auto conceito e autoestima), à distração e ao desempenho cognitivo. Nesse sentido, as atividades lúdicas poderiam trazer mais efetivamente um impacto positivo. Além disso, o exercício em grupo, também promove benefícios psicológicos de uma experiência grupal, como o senso de envolvimento, compromisso e propósito; o senso de controle sobre eventos externos; a instilação de esperança, o altruísmo e a percepção de competência social.

Ainda são necessários mais estudos para integrar um modelo teórico da ação isolada ou conjunta de tais mecanismos.

Bases Metodológicas da Intervenção

Os estudos que relacionam a prática de atividade física à redução dos sintomas da depressão consideraram os seguintes aspectos: exercícios agudos e crônicos; tipo de exercícios aeróbios (caminhada, corrida entre outros) e não aeróbios tais como relaxamento, alongamento e musculação; frequência e intensidade do esforço realizado e, duração da sessão ou do programa.

Ainda não está claro se os efeitos antidepressivos dos exercícios são devido às sessões únicas ou ao efeito do treinamento de longo prazo uma vez que não existem diferenças significantes quando são comparados, nos estudos, os efeitos benéficos de exercícios agudos e crônicos.

Em relação ao tipo de exercício, a maioria dos trabalhos permite evidenciar que tanto o exercício aeróbio como o não aeróbio tem efeitos positivos na redução da depressão; destacam também que o exercício aeróbio é tão bom, ou melhor, do que a meditação, a psicoterapia ou o treinamento com peso para reduzir a depressão em pacientes psiquiátricos. Entretanto, outras investigações constataram um maior impacto dos exercícios aeróbios na redução dos sintomas quando comparado com o impacto dos exercícios não aeróbios.

Quanto à intensidade, frequência e duração do exercício ainda existem poucas evidências científicas que permitam recomendações efetivas com o propósito de reduzir a depressão. A análise dos resultados de diversos estudos sugere que, principalmente, a intensidade leve a moderada pode reduzir os sintomas depressivos; a frequência pode variar de 3 a 5 vezes por semana, dependendo das características e necessidades do paciente; a duração de cada sessão deve ter pelo menos de 20 a 30 minutos e, no máximo 60 minutos. Quanto à duração do tratamento, o ideal é que o mesmo possa ser realizado por meio de programas de atividades físicas e exercícios com duração superior a 12 semanas e que, posteriormente, o paciente possa adotar este programa como um estilo salutar à sua qualidade de vida.

Portanto, um programa gradual de exercício, com intensidade baixa a moderada, pode ser desejável e recomendável para a obtenção de efeitos antidepressivos dos exercícios e promover a adesão e manutenção dos indivíduos aos programas de atividade física. A variabilidade individual no condicionamento e na adaptação ao exercício sempre deve ditar a progressão da atividade uma vez que, geralmente, os indivíduos depressivos possuem baixos níveis de aptidão cardiorrespiratória e podem apresentar dificuldades no início das atividades em decorrência do quadro depressivo. Além destas recomendações também devem ser adotados como rotina de trabalho exercícios prévios de aquecimento e exercícios posteriores de resfriamento nas sessões de atividade física. Ainda é necessário distinguir esta prescrição para a melhora da qualidade de vida e remissão dos sintomas de pessoas, leves ou moderadamente deprimidas, daqueles pacientes psiquiátricos cronicamente comprometidos.

Estas diretrizes não são recomendáveis para pacientes com quadros depressivos severos, pois se encontram muito debilitados fisicamente, tanto devido à gravidade dos sintomas quanto ao uso judicioso de antidepressivos, fundamentais para o processo de recuperação. Além disso, os pacientes podem apresentar resistência à reabilitação física, também decorrentes dos sintomas, pois, os mesmos podem interferir com o desejo e a capacidade de se exercitar, principalmente, em um esquema formal de exercícios aeróbios.

Considerando a resistência à reabilitação física de pacientes depressivos graves sob tratamento hospitalar, é recomendável um esquema de exercício constituído por alongamentos, exercícios aeróbios de baixa intensidade, e exercícios de resistência muscular localizada. Esse esquema de exercício agudo associado a uma estratégia de aplicação lúdico-recreativa, prazerosa e divertida, também têm impactos positivos e promovem o alivio dos sintomas, auxiliando na reabilitação do paciente.

A utilização da prática sistemática de atividades físicas e de exercícios crônicos e agudos no tratamento das pessoas com transtornos mentais deve ser realizada por um profissional de Educação Física, devidamente qualificado para atuar nesta área. Este profissional deve integrar a equipe multidisciplinar de saúde, tomar ciência do diagnóstico clínico do transtorno do paciente bem como dos tratamentos aos quais está sendo submetido para que possa prescrever acompanhar e avaliar o programa ou uma sessão de exercícios adequados ao indivíduo, ou seja, às suas características e necessidades, seu potencial e limites.

Diversos autores enfatizam não haver riscos adicionais para a saúde quando são associados exercícios ao tratamento medicamentoso, sob supervisão médica apropriada.

Com base nas evidências científicas, a intervenção planejada de atividades físicas e exercícios, em uma única sessão ou em um programa regular e sistemático, vem sendo recomendada como uma intervenção terapêutica importante associada ao tratamento farmacológico e/ou psicoterápico em indivíduos com Transtorno Depressivo Maior, Transtorno Distímico e Transtorno Depressivo não especificado.

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